terça-feira, 24 de maio de 2011

Boas Novas!

Qual foi a minha surpresa ao descobrir que aquele baú estava esperando por mim há duzentos anos! Como isso era ao menos possível eu jamais saberei. Mas não importa. Dentro do baú havia uma carta. A carta mais importante que eu recebi durante toda a minha vida.


Querida Florence,

Eu pressinto que um tempo ainda mais sombrio que o meu está para chegar. Por isso, escrevo-lhe esta carta. Ela contém palavras que jamais podem ser esquecidas. Eu tenho a certeza de que ela chegará até você no tempo certo.

Esse é um tempo de transição, assim como o seu. Eu vejo que nossos valores estão distorcidos. Nossa fé é cega e se concentra em ensinamentos valiosos, porém congelados no tempo; e nossas esperanças residem na certeza de que poderemos responder todas as perguntas no futuro. Infelizmente, falhamos em perceber que a chave de tudo encontra-se no agora. Anos vão se passar até que todos saibam que o certo e o errado residem dentro de nós, e que jamais seremos capazes de responder certas perguntas. Simplesmente porque não é nosso papel respondê-las.

Florence, as pessoas perderam a fé tanto umas nas outras, como nelas mesmas. Tanta coisa errada está acontecendo. Olham para dentro de si com os temores do mundo afora e tudo que conseguem enxergar é escuridão. Por isso, morrem de medo de olhar novamente. Isso é um erro. Se olhassem, saberiam que o ser humano é bom por natureza. Se alguém lhe disser o contrário, não acredite! Se algum dia você duvidar disso, feche os olhos e preste muita atenção. Você verá que eu estou certo.

Por isso, muitas pessoas acreditam que não merecem ser felizes. Dão tanta importância para as perdas que não prestam atenção nos ganhos. Lembram-se sempre de reclamar, e nunca de agradecer. Quando se sentem felizes, estão incomodadas. Involuntariamente farão de tudo até que voltem à condição anterior de miséria. Acostumaram-se ao sofrimento. Acreditam que, dessa forma, serão recompensadas no futuro por algum senso de equilíbrio no universo. Acontece que, se elas próprias não se ajudam, não há nada que o universo possa fazer a respeito. Florence, jamais desista dessas pessoas. Elas serão difíceis de convencer, mas você não pode parar de tentar. Cada um desses indivíduos possuirá um papel muito importante no futuro. Como você deve saber, tudo está conectado. Se qualquer pessoa deixar de servir seu propósito nesse mundo, essa falha será propagada e amplificada com o passar do tempo. Eventualmente, produzirá resultados diferentes do esperado. Jamais se esqueça disso: todas as pessoas são elementos-chave. Comece por aquelas que mais precisarem de você.

Finalmente, o mais importante: você não conseguirá fazer tudo sozinha. Mas isso não é motivo para desanimar! Você terá ajuda. Apenas faça a sua parte, e você verá que muitos começarão a seguir o seu exemplo. Pessoas que você jamais imaginaria serem capazes de grandes feitos serão transformadas na frente de seus olhos!

Não destrua esta carta. Caso não queira guardá-la para si, deixe-a ao vento e ela certamente encontrará alguém que precise dela tanto quanto você. Se quiser ficar com ela, não tem problema. Em muitos momentos, você vai duvidar do seu caminho. Esta carta certamente fará com que você recupere suas forças. Eu não estarei aí, por isso cabe a você espalhar as boas novas! E não se esqueça de mais uma coisa: cresça, mas jamais se esqueça da mágica que há dentro de cada um de nós. Ela é real!

Muito boa sorte Florence! Sua missão será muito mais difícil que a minha. Mas você irá conseguir. Eu posso sentir.


-B.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Gênese (Tributo)

Florence voltou para onde estava o pergaminho. Ele parecia ainda maior do que da última vez. Não se conseguia mais enxergar seu fim no horizonte. Tirou os sapatos e ficou de pé sobre ele. Havia encontrado o primeiro capítulo. Decidiu que iria lê-lo, não importando quantos quilômetros o capítulo tivesse. Para sua sorte, o primeiro capítulo era bem mais curto que o esperado.

“Milhares de anos atrás, havia sobre a terra certas criaturas. Tinham exatamente a mesma aparência que pessoas, viviam exatamente como pessoas, pensavam exatamente como pessoas. Mas não eram. Quando surgiram no mundo, eram seres mágicos capazes de fazer coisas impensáveis. Entretanto, a harmonia entre essas criaturas estava abalada e a mágica se havia se perdido há muito tempo. A grama já não era tão verde, os dias eram mais escuros, o gosto na boca tornara-se mais amargo. O mundo estava sendo consumido, e a vida parecia condenada a uma vagarosa decadência até o fim dos tempos. Mas os dias passavam sem ninguém notar.

Parecia um dia como qualquer outro. Não era. A Terra havia tentado avisá-los por anos de que algo terrível estava por vir. Contudo, ninguém entendeu os sinais. Até que, finalmente, nesse dia, tudo mudou. O tempo parou. Ninguém percebeu, pois haviam sido paralisados. Era o último esforço da Terra para conter a catástrofe iminente. Foi em vão. Quando o tempo voltou a correr, a terra tremeu. Cada vez mais forte. Todos entraram em pânico. O chão se abriu, engolindo tudo o que estava no caminho. Aqueles que estavam seguros ainda tiveram que ver uma enorme parede de água se levantar e levar o pouco que havia sobrado embora. Muitos perderam a vida. Outros sentiram que haviam perdido muito mais.

Quando a terra se acalmou no dia seguinte, os que sobreviveram encontraram um desafio ainda maior: recomeçar do zero. Não foi um processo rápido, mas no fim das contas, vários deles reencontraram-se com a harmonia que havia sido perdida há tanto tempo. Milhares agindo como um só, tendo o bem comum como principal objetivo. Estavam melhores, mais fortes. Dessa vez, vários notaram a mudança que estava para chegar.

O que ninguém sabia é que todos aqueles que haviam sido levados embora, ao mesmo tempo, acordavam em uma nova terra dentro da terra. Depararam-se com um enorme tapete florido, de tamanho imensurável.Toda a mágica do mundo de fora havia sido canalizada para o mundo de dentro. Quem estava ali logo percebeu que era capaz de fazer qualquer coisa, de ser o que quisesse.

Foi assim que tudo tal como conhecemos começou. Pouquíssimos dos habitantes de fora sabem da existência do mundo dentro da terra, e vice-versa. Quase ninguém pisou nos dois mundos na mesma vida. Mas, mesmo assim, o tempo passará para ambos, até chegar o dia de se tornarem um só novamente. E, assim como o dia em que o chão se abriu, parecerá um dia como qualquer outro. Mas não será.”

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Combustão

Alice não havia seguido o conselho. Nem o meu, nem o da lagarta. Ela não deixaria esse mundo por nada. Nem mesmo agora, enquanto calmamente observava tudo queimar. Acreditava que ainda podia salvar tudo e todos. Só não sabia como. De repente, olhou para o lado e viu uma coisa estranha. De seus ombros saíam grossos fios. Ao passar a mão atrás de sua cabeça, viu que ali também encontravam-se outros fios. Tentou se desvencilhar inutilmente. Apesar de sentir que alguns deles estavam no limite de suas extensões (enquanto outros se encontravam estranhamente frouxos), não andou além. Primeiro, tinha a certeza de que aquele fio não iria arrebentar. E, em segundo lugar, se saísse dali, jamais poderia retornar. Então resolveu seguir aqueles fios de volta para ver o que a prendia ali. Mais rápido do que ela esperava, o número de fios começou a aumentar, se ligando a praticamente todas as coisas que via. Quanto mais andava, mais fios apareciam. Finalmente, viu uma silhueta. Todos os fios vinham de suas mãos. Os olhos amarelos brilhavam e eram a única coisa nítida que se podia ver. Alice continuou a se aproximar, mas ao invés de se revelar, a silhueta continuava negra, enquanto os olhos brilhavam cada vez com mais intensidade. Parou a menos de um metro da silhueta.

“Quem é você?”

“Você realmente não sabe, Alice? Estamos juntos desde seu nascimento. Antes disso até. Estive em todos os lugares que você foi. No seu mundo e aqui também.”

Como Alice estava confusa demais para retrucar qualquer coisa, o titereiro continuou:

“Como você pode ver, tudo se liga a mim. Esses fios unem a ponta dos meus dedos a cada ser vivo nesse planeta. Saudáveis ou doentes, alegres ou tristes, para o bem ou para o mal. Quase nada escapa dos meus fios. Em alguns casos, meus laços são tênues tais como uma frágil linha de costura; às vezes são mais fortes que o aço. Sou mais antigo que todos os mundos, mais antigo que o próprio deus que os criou. Eu sou eterno. Sempre estive aqui e daqui nunca sairei. Aquele que afirma que estou morto, não sabe mais o que diz. Justamente por ter se desvencilhado de mim.”

Alice agora estava entendendo menos ainda, e resolveu continuar em silêncio. O titereiro levantou sua mão esquerda, e logo depois, a direita. Ambos os movimentos provocaram uma sensação estranha em Alice.

“Se movo minha mão esquerda, você olhará pra trás, se movo minha mão direita, acontecerá o inverso. Contudo, tanto eu como você temos igual controle sobre os laços que nos unem. Qualquer um capaz de equilibrar perfeitamente a força de todos os meus fios ganhará um presente. Entretanto, esse é um desafio que requer esforço constante. Por isso mesmo, pouquíssimos obtêm êxito. Do mesmo jeito que dou, posso tirar.”

Alice provavelmente continuou na mesma. Olhou para as linhas que uniam os dois por um tempo. Finalmente, resolveu arriscar:

“Então por que você não me deixa sair daqui?”

“Eu não estou impedindo nada. Sair daqui ou não depende exclusivamente de você, Alice.”

“Mas eu vi! O fio estava no limite. Eu sabia que eles não iriam arrebentar. Portanto, estaria presa aqui de qualquer maneira.”

“Observe agora, Alice. As linhas continuam em seu limite. E você andou dez minutos para chegar até mim. Elas não deveriam estar frouxas?”

Alice estava menos confusa, mas ainda não era capaz de entender muita coisa. O titereiro pegou um pouco de ar, e depois voltou a falar, com o intuito de concluir seu raciocínio:

“Meus fios têm o comprimento que sua força de vontade permitir. Se você pudesse apenas se livrar do peso morto que carrega... Mas você escolheu ficar. Num lugar ao qual nunca pertenceu. Observe.”

O titereiro mostrou novamente as mãos. Quando Alice percebeu que apenas as linhas da mão esquerda que os ligavam estavam tensionadas, finalmente compreendeu. Sentou-se calmamente no chão. Foi a última coisa que eu vi. Depois disso, as chamas ficaram altas demais e as silhuetas de Alice e do titereiro desapareceram.

sábado, 21 de agosto de 2010

A Árvore Falante

Essa foi a primeira conversa que tivemos; aliás, muita coisa mudou em minha vida depois do meu encontro com Alice, três dias atrás. Enxerguei no meio do bosque uma fumaça. Andei em direção a ela, que se tornava cada vez mais espessa. Até que, finalmente, perto de uma árvore que parecia centenária, lá estava ele a fumar seu cachimbo.
“Estava à sua espera, menina”, foi a primeira coisa que ele disse. Depois começou a falar ininterruptamente, sem me dar a chance de responder.


Ouça-me com atenção. Há muito tempo atrás, havia uma menina. Loira, cabelos cacheados, vivia numa casa com um belo jardim, longe da cidade. Sua melhor amiga era uma jabuticabeira. Elas passavam horas e horas e horas conversando sobre todos os assuntos. Todo ano, a árvore se enchia de flores e depois de deliciosas jabuticabas. Durante essa época, as duas eram ainda mais inseparáveis.
Um dia, a menina e a árvore conversavam, enquanto sua irmã mais velha passava ali pelo jardim. Ela caçoou da caçula por estar falando com uma planta por dias a fio. A menina, então, pensou que a irmã tinha razão e teve medo de estar enlouquecendo. Depois de alguns dias, sentou-se ao pé da jabuticabeira e começou a chorar. Ficou ali por horas. A árvore nunca havia visto a menina naquele estado e tentou conversar com ela. Mal sabia que essa seria a última conversa que teriam.

“Por que você está tão triste, menina?”
“Minha irmã me disse que árvores não falam.”
“E o que você acha disso?”
“Eu acho que ela tem razão. Pessoas normais não falam com árvores, e eu quero ser normal.”

O desejo da menina se realizou. A partir desse momento, a árvore fechou os olhos e não falou nunca mais. Nos anos seguintes, passou a dar cada vez menos flores e frutas. Até que um dia parou. Ficou doente, seca, e mal se podiam ver folhas verdes nela.
No começo a menina se sentiu mal, morria de vontade de sair no jardim e conversar com a árvore. Depois, foi esquecendo, até que isso se tornasse uma vaga memória, perdida em algum cantinho de sua mente. Conforme os anos se passaram, ela eventualmente tinha sonhos com uma árvore que falava, pedia ajuda a ela, mas nunca se lembrou do porquê. Os sonhos ficaram cada vez mais raros até que, um dia, cessaram completamente.
A última folha verde da árvore caiu no chão exatamente na mesma noite que a menina, agora uma linda mulher, teve o último sonho. A árvore havia gasto suas últimas forças, chamando sua amiga. Esforçou-se tanto que gastou inclusive as últimas energias que guardado para si. No outro dia, a mulher acordou triste sem saber a razão. Sentia que uma pequena chama dentro de si havia se apagado, para nunca mais voltar a acender. Sem jamais descobrir o motivo, sua vida normal tornou-se mais triste desse dia em diante.


Veja Florence, a vida é cheia de coisas mágicas. Tudo está ligado de uma maneira que sequer podemos imaginar. Na verdade, nascemos enxergando e entendendo todas essas coisas, e com o tempo, o véu se rompe. Passamos a ver cada vez menos, acreditar cada vez menos, até que um dia não nos resta absolutamente nada e a vida perde toda a mágica, torna-se amarga. Começamos por deixar de acreditar em árvores falantes. Depois, deixamos de acreditar em mágica. E assim se segue, com destino, Deus, amor... Mas tudo isso continua lá, apenas esperando ser redescoberto, por aqueles que acreditam e sabem onde procurar. Precisamos acreditar, em qualquer coisa, por menor que seja. Caso contrário, tornamo-nos incapazes, como árvore, de dar flores e frutos. Até que, por fim, secamos, gastando nossas últimas energias, sem jamais ter seguido em frente.

Calou-se, deu um trago em seu cachimbo e, imediatamente, foi envolvido pela fumaça. Desapareceu no meio dela, como mágica. Encontramo-nos várias vezes depois. Mas daquele dia em diante, toda vez que passava pelo bosque, parava para conversar com as árvores. Com o tempo, elas voltaram a me responder. Então surgiram as fadas, os duendes, os anjos, as ninfas... E eu nunca mais me senti sozinha.

domingo, 6 de junho de 2010

Estática

Foi numa noite estrelada que percebi. Estava encantada observando uma das inúmeras paisagens que se podia encontrar na área dos bosques. Era uma enorme planície, forrada de grama. Ao longe, apenas uma árvore, muito alta. Um tapete verde até onde a vista podia alcançar, iluminado apenas pela luz da lua. No começo, não pensei que esse dia pudesse chegar e, agora que chegou, não sei muito bem o que fazer. Deixe-me explicar o que aconteceu.

Enquanto estava deitada, comecei a repensar todo o meu passado. Tudo o que havia vivido antes de chegar aqui. Já não sabia mais se eu queria essas coisas de volta. Pensei na minha família, meus amigos. No último natal, quando eu ganhei a boneca que tanto amei, mas que já não carregava mais comigo. Lembrei-me das noites na casa das amigas, quando ficávamos acordadas conversando até tarde, escondidas, para evitar um sermão. Do dia seguinte, que mal conseguíamos ficar acordadas na escola. Da primeira vez que gostei de um menino. Das conversas de corredor com minha irmã. Da última vez que vi o rosto da minha mãe... memórias especiais, com certeza.

Talvez vocês me tomem como louca, mas já não sabia mais se queria voltar pra tudo aquilo; não sabia ao certo se queria vê-los novamente. Na verdade, não sabia mais se queria ver qualquer pessoa, mesmo as daqui. Senti que não fazia questão de mais nada, enquanto eu tivesse aquela paisagem para observar. Poderia ficar ali para sempre, se quisesse. De fato, permaneci naquele campo por mais três dias, completamente sozinha. Pela primeira vez, não gastei todas as minhas forças em procurar uma saída. Não passei horas treinando minha mente, com medo de perder a noção de quanto tempo estava aqui. Pela primeira vez, não senti aquela necessidade patológica de querer algo que não se tem. Não precisava, não queria nada, não queria ninguém. Nunca estive tão tranqüila antes. Mesmo enquanto estava perto da minha família e meus amigos, jamais me senti tão... feliz?

Se era felicidade, ou se eu estava apenas me enganando, eu não sei. Talvez eu tenha conseguido encontrar a paz que muitos passam a vida inteira procurando; talvez minhas opções tenham finalmente se esgotado. E, sinceramente, se é uma coisa ou outra, no momento não me interessa saber.




Tudo estava tão distante como um sonho, e talvez devesse continuar assim. Dessa forma, essas memórias permaneceriam especiais para sempre.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Felino.

Hahahahahaha...

Gato malhado, gato listrado, gato assustado, gato, gato, gato, peludo, pequeno, amarelo, laranja, mudo, gato, gato, gato... Some, aparece, gato ao lado, invisível, apenas sorriso, GATO!
Mais um gato aqui, um gato acolá... A risada em todo lugar. Miauuu...


hahahahaha...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Schrödinger

Vez por outra, enquanto caminhava pelas trilhas da floresta, acabava me perdendo. Era fácil se perder em meio a tantas trilhas. E, estranhamente, toda vez que estava perdida, após andar por alguns minutos, deparava-me com uma bifurcação. Parecia sempre a mesma bifurcação. O caminho da esquerda era escuro, a mata era fechada, o que me deixava assustada demais para andar por ali. Pegava, então, o da direita, iluminado, cheio de flores. Dias depois, quando não sabia onde estava, surgia a bifurcação novamente. E o que me deixava mais curiosa era que eu não me lembrava de estar vindo sempre do mesmo lugar. Semanas passaram, e o fato se repetiu mais algumas vezes. Na última delas, após passar o familiar corredor florido, pensei ter escutado vozes, vindas de dentro da floresta, fora das trilhas. Como não reconhecia nenhuma delas, decidi entrar na mata fechada e encontrá-las. Conforme o som tornava-se mais alto, minha vista tornava-se turva. Uma espécie de névoa começava a tomar conta do lugar. Prossegui então com mais cautela, para não esbarrar em alguma coisa e ser percebida. Quando vi a silhueta de uma menina, as vozes já estavam altas o suficiente para que eu tentasse descobrir alguma coisa. A menina não falou uma palavra desde que cheguei, e não conseguia ver com quem ela conversava. Mas não havia dúvidas: aquela névoa estranha originava-se exatamente daquele lugar.

"Você precisa deixar isso de lado. Ter memórias não é uma coisa ruim, podemos aprender muito com as experiências passadas. Entretanto, viver em função delas, minha cara, é a pior coisa que alguém pode fazer. Por mais que você não esteja feliz agora, voltar aqui é o tipo de opção que você não devia ter sequer considerado. Vivemos de acordo com as nossas escolhas. Ninguém pode mudar o passado. Por mais que este seja um lugar diferente dos outros, certas coisas não são possíveis nem aqui, Alice. Se ajuda, saiba que essa realidade não é única. Em algum outro lugar, outra Alice conseguiu ter sucesso no que você falhou, bem como falhou onde você teve sucesso. Você já tomou todas as decisões certas e erradas que eram possíveis. Qualquer coisa que você um dia já quis, você já teve. Só que não foi aqui; não nesse tempo, não nesse espaço. E isso não quer dizer que aquela Alice está mais feliz que você. De uma vez por todas, você precisa largar mão de tudo o que não tem mais utilidade. Precisa enterrar aquilo que não te deixa seguir em frente. Você sabe o que eu quero dizer. Alice, já faz oito anos. Você precisa sair daqui. Precisa sair daqui de uma vez e nunca mais voltar."

A menina ouviu em silêncio, permaneceu parada por um tempo, e depois correu por entre as árvores até sumir em meio a elas. Parecia estar chorando enquanto corria. Eu, por outro lado, não sabia mais o que fazer. Eram muitas perguntas na minha cabeça. Alice? Quem é ela? Havia uma maneira de sair? E eu? O que devia fazer? Fiquei paralisada e não pude segui-la. Em segundos, a névoa se dissipou. Corri até o lugar no qual eles conversavam. Nada. Ninguém. Contudo, apenas ouvir aquela conversa mudou algo em mim. Deixei a boneca surrada que carregava comigo há anos ao lado da maior árvore que consegui encontrar. No dia seguinte, deparei-me novamente com o caminho bifurcado. Por fim, percebi que, apesar do caminho à direita ser aparentemente mais fácil, ele oferecia um enorme risco: provavelmente iria manter-me presa, condenada a passar pelos mesmos lugares, até o fim dos tempos. Nada ali iria mudar. Assim como Alice, não seria capaz de seguir em frente, refém apenas da minha própria covardia. Então respirei fundo e caminhei resoluta pelo caminho da esquerda. Não posso dizer que era um lugar bonito. Não posso dizer que não senti medo. O que posso dizer é que aquele caminho levou-me a lugares que eu sequer poderia imaginar. E, coincidência ou não, nunca mais vi a bifurcação depois desse dia.